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3 de março de 2009

Talking About Short Films #14 | Glicério s/n

Glicério s/n:

Sinopse - "Quebrando estigmas e preconceitos, esse documentário procura analisar os caminhos de saída encontrados pela população de rua. Tomando como base o bairro do Glicério entrevistamos pessoas desde o nível da situação de rua até ex-moradores para melhor entendermos suas necessidades e dificuldades".


Glicerio Without Number from Matheus Siqueira on Vimeo.

Direção: Matheus Siqueira
Ano: 2008
Duração: 8'30''
País: Brasil
Som: Cléderson Perez
Fotografia Still: Fernando Borges

O Matheus Siqueira, diretor desse documentário curta-metragem, tem 20 anos e ingressou na vida profissional assim que acabou o Ensino Médio, a experiência dele com o trabalho se divide em dois campos: redes de lanchonetes fast-food, que lhe deu sólidos fundamentos para montar um sanduíche e diferenciar um Latte de um Capuccino; e a área de vídeo para internet, onde ele mantém um videocast, chamado chamado éoqhá, há quase 4 anos. Dei uma olhada e posso garantir que é coisa de qualidade, viu?! Acessem!

Bom, além disso ele é estudante do 5º semestre de jornalismo e nas férias aproveito para fazer cursos de cinema e filmar os projetos. Conheci o Matheus através do Twitter e conversando com ele por lá mesmo fiquei sabendo que ele tinha dirigido esse curta que estava concorrendo em um festival, chamado Babelgum Online Film Festival e que foi criado com a participação direta do Spike Lee. Como eu tenho essa coluna sobre curtas aqui no blog, me ofereci para divulgá-lo, e como ele concordou, aproveitei para fazer algumas perguntinhas sobre o trabalho dele.

[Talking About Movies] De onde surgiu a idéia do documentário?
[Matheus Siqueira] Pessoalmente faço um documentário ou um curta sobre algum tema para conhecer mais sobre algo que não sei. No caso dos moradores de rua, sempre os vi pela cidade e tentava entender os motivos que os levaram a rua, preocupações, modo de vida, problemas etc. Então tive a idéia de fazer um videocast apenas para mostrar as histórias dessas pessoas, mas o projeto ficou em espera por falta de dinheiro e de uma equipe que se animasse com a idéia. Um dia saindo do Masp comprei a revista Ocas e li sobre o bairro do Glicério, o lugar com maior concentração de moradores de rua de São Paulo. Peguei o metrô e fui direto para o Glicério para tentar fazer um documentário sobre o bairro. Como não conhecia nada fiquei meio perdido, mas perguntando aos moradores de rua achei uma ONG (Minha Rua Minha Casa) debaixo da ponte do Glicério. Lá eles me indicaram outra ONG que por sua vez me indicou mais uma ONG, que por sua vez me indicou um albergue. No final de uma tarde descobri que o bairro além de concentrar a maior população sem-teto de São Paulo também contém todas as etapas para eles saírem da rua. Primeiro uma ONG que dá almoço e ajuda eles a se organizarem, depois o albergue, lá ele pode conseguir um trabalho. Após ter uma pequena renda vai para a moradia provisória, e daí com um endereço fixo é mais fácil conseguir um trabalho com carteira assinada e sair da rua. E toda essa escada em apenas algumas quadras de distância. A idéia de dormir no albergue surgiu aqui, não tínhamos dinheiro e dormindo lá estaríamos perto de tudo que precisávamos documentar.

[Talking About Movies] Fale um pouco sobre essa experiência de conviver com os mendigos no albergue. E em que isso ajudou no curta.
[Matheus Siqueira] Dormir com os moradores no albergue foi o que mais marcou nosso documentário, lá no conhecemos realmente a realidade, os funcionários do albergue chegaram a fazer uma aposta que não chegaríamos ao final [risos]. O albergue é um local limpo e bem cuidado se você levar em conta que eles recebem muito pouco para manter aquilo aberto. O maior problema é no convívio com os moradores de rua, é comum haver violência, roubo, homossexualismo nos chuveiros, drogas etc. Foi justamente nossa exposição ao que eles passam diariamente que fizeram com que eles se abrissem conosco. Era na janta que ouvimos os verdadeiros problemas para arrumar um emprego, fui no pátio a noite que um poeta nos cantou sua música, e as quatro e meia da manhã que vimos a rotina de alguns acordarem de madrugada para carregaram caixas no mercadão. Após dois dias conversando com ele, conhecemos quase todos que moravam debaixo da ponte do Glicério e nos arredores. Isso ajudou muito a convencer os traficantes do local que não estávamos interessados em denunciar nada e apenas falar com os moradores de rua, o que nos salvou algumas vezes de sermos roubados. Ajudou muito nas entrevistas, eles falaram coisas tão íntimas que poderiam denunciar a si mesmos.

[Talking About Movies] Qual o seu principal objetivo com a realização desse projeto?
[Matheus Siqueira] O objetivo inicial era ajudar os moradores de rua mostrando que eles não são passivos no que diz respeito àquela situação e que muitos lutam para sair da rua, aproveitando as poucas oportunidades que a sociedade oferece. Após o final das filmagens minhas dúvidas, se realmente ajudaria eles ou estava apenas explorando pobreza, aumentaram e agora estou mais cético quanto as reais mudanças que o documentário trará. Acredito que o que mais valeu a pena foi a valorização da voz de alguém que nunca teve voz. Pode parecer irrisório, mas colocar uma câmera e um microfone em frente a alguém significa que o que eles falarem tem importância, nem que seja só para você. Todos os entrevistados perceberam que estávamos interessados nele e não na imagem deles, tanto é que acabaram se abrindo para recém-conhecidos.

[Talking About Movies] Qual a maior dificuldade na produção do curta?
[Matheus Siqueira] A segurança dos equipamentos e apenas filmar aqueles que concordaram e assinaram o termo de cessão de imagem. Os moradores do Glicério estão acostumados a serem explorados pela mídia, que pegam as imagens deles sem autorização e expõem nos jornais. A princípio ninguém queria ser filmado e só depois de conversarmos e perceberem que não estávamos lá para explorar é que concordaram em falar. Aqui ter dormido com eles ajudou muito, vários nos reconheceram do albergue e perceberam que não éramos a grande mídia.

[Talking About Movies] Como foi o processo de indicação para o 2n Babelgum Online Film Festival?
[Matheus Siqueira] O Babelgum Online Film Festival foi criado com a participação direta do Spike Lee. A idéia é que seja um local exlusivamente de bom material independete. Funciona de modo muito simples, por volta de novembro do ano passado as inscrições foram abertas e terminaram acredito que em janeiro. Foi quando começou a segunda fase, que é a parte das votações, os mais votados de cada categoria (Curta, animação, mini-curta, documentário) vão para as finais aonde os juízes irão escolher o melhor. Essa parte da votação aberta ao público vai de fevereiro até abril. E a premiação ocorre no Festival de Cannes, cada vencedor leva US$ 270.000. No site e no blog explica direitinho: http://www.babelgum.com/online-film-festival/

[Talking About Movies] Esse é o primeiro festival que você participa?
[Matheus Siqueira] Já tive outros curtas que participaram de outras formas em alguns festivais. Como no Festival de 5min da Bahia, no Gasteig Open Video Fest - Munique, Alemanha e na Mostra do Filme Livre 2009

[Talking About Movies] De onde vem a sua inspiração?
[Matheus Siqueira] O trabalho do Kieslowski foi a o empurrão final para entrar de vez no mundo do cinema. Seu trabalho na "Trilogia da Cores" foi o que primeiro assisti, mas o que realmente gostei foi a discussão religiosa que ele traz nos dez filmes do "Decálogo". Por achar o cinema europeu mais tangível para minha realidade como independente, estou no metade da filmografia do Truffaut e procurando avidamente terminar os "Contos Morais" do Eric Rohmer. Mais recente descobri o Wong Kar Wai e seu modo intimista de filmar e mostrar uma China complexa e profunda. Na área de documentários estou mais atrasado que de filmes, ainda estou por assistir a algum trabalho do Eduardo Coutinho. Aprecio muito os trabalhos do João Moreira Salles e a sobriedade que ele trata os assuntos, o lirismo nos documentários de Cao Guimarães, e sou fortemente influenciado pela linguagem do "Homem e uma câmera" de Dziga Vertov.

[Talking About Movies] Como você vê o cinema brasileiro atualmente?
[Matheus Siqueira] Recentemente li um produtor americano dizer que Hollywood parou de contratar novos diretores americanos para pagar diretores já consolidados em países aonde o estado financia os filmes (link para a matéria). Vejo o Brasil como um berço de grande diretores e muita criatividade - financiado pelo editais talvez? -, que estão chegando na maturidade de suas carreiras e fazendo o Brasil ser reconhecido pelo cinema. Fora os renomados diretores brasileiros, infelizmente há muitos filmes ótimos que por falta de financiamento, distribuição, propaganda não chegam ao grande público e nem mesmo ao nicho de cinéfilos fora das grandes cidades.

[Talking About Movies] Qual seria a maior dificuldade de fazer cinema no Brasil?
[Matheus Siqueira] Acho que o problema de todos é conseguir dinheiro ou editais que dão chance para pequenas produtoras. Agora, o que acredito ser o maior problema é divulgar depois. Se luta para conseguir dinheiro para produzir e uma vez pronto é necessário a mesma quantidade de dinheiro para fazer seu filme ser visto. Tem os gastos da cópia em 35mm para passar em mais de um cinema ao mesmo tempo, os gastos de publicidade, etc.

[Talking About Movies] E sobre novos projetos, o que podemos esperar do Matheus em 2009?
[Matheus Siqueira] Uma importante e inovadora produtora brasileira se interessou pelo documentário e estamos a caminho de lançar um longa do "Glicério s/n", como temos 15h de entrevista temos material suficiente para fazer, só estou emperrado é em como organizar esse material. Fora isso, estarei passando esse ano em Beirut (Líbano) trabalhando para uma TV Árabe, pretendo aproveitar para fazer experimentos na área de seriados feitos para internet, há um roteiro realista-ficcional que já estamos produzindo. O primeiro episódio, que começa aqui no Brasil, deve sair até o final do mês.

[Talking About Movies] Você pretende seguir carreira na área de cinema?
[Matheus Siqueira] Sim, uma vez que você comecei a fazer meus próprios filmes não me vejo em outra área.

[Talking About Movies] Alguma possibilidade do nome “éoqhá” dar origem a uma produtora, talvez?
[Matheus Siqueira] Estamos planejando isso e procurando meios para fazer o investimento inicial.


Então é isso! Obrigado ao Matheus pela colaboração com o blog. Esperamos que dê tudo certo com os novos projetos e lá no Festival também, claro! Estamos esperando agora a série pra internet, por que a gente também adora séries!

E você, querido leitor, que curtiu a entrevista com o Matheus, não deixem de assistir o Documentário Curta-Metragem, e aproveitar para dar uma forcinha a esse ótimo trabalho que está representando tão bem o nosso país! Para saber como votar, acesse esse link que lá explica tudo direitinho: http://eoqha.net/editoriais/vote/


As fotos que ilustram o post são de Fernando Borges.

11 comentários:

pedro tavares disse...

Ótima entrevista! Parabéns Marcel!

Kau Oliveira disse...

Legal, Marcel! A entrevista ficou ótima e pude aproveitar bastante, já que to tentando filmar um documentário, mas em longa metragem!

Abs!

Breno Adegas disse...

Muito chic isso! =D

Kamila disse...

Marcel, adorei a entrevista com o Marcel, vou votar no curta dele e deixei o vídeo dele carregando aqui para poder assistir.

apanhadogeral disse...

Muito legal essa entrevista e a interatividade que a internet nos proporciona.
Parabéns pelo post.
abraço

Sérgio Déda disse...

hehehhehe

Legal... daqui a pouco assisto o curta...

Abraços!

Sérgio Déda disse...

ah tem Meme pra vc...

flws

Wally disse...

Adorei! Parabéns! E a ecleticidade do blog só cresce. Continuem assim.

Ciao!

Marcel Gois disse...

Pedro, valeu! =)

Kau, fico feliz em ter ajudado! Abraço! =)

Breno, mt mt chic hein!? kkk xD

Kamila, valeu, dps fala o que achou do doc. =)

Hugo, valeu e viva a internet, hein!? rs abraço!

Sérginho, assista mesmo hein!? Dps passo la para ver o Meme. abraço!

Wally, valeu! =D ciao!

Bel disse...

Oi!
Gostaria de falar com vocês.
Poderiam me enviar um e-mail?
(bel@mktpromocional.com)

Obrigada.
Bjs!

Ana Luiza Angrimani Norris Gabrielli disse...

Olá! Gostei muito da entrevista e gostaria muito do contato do Matheus. Sou estudante de arquitetura e gostaria muito de saber um pouco mais sobre o Glicério. Pretendo fazer meu TFG sobre o local. Se alguém puder me passar! Muito obrigada!!!!